For Dona Encrenca
Aaíiiii, quero você aqui:

Por que nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto, tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida.
Eu sinto que meu gesto existe e o teu gesto é minha voz, a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero que surja em mim como a fé nos desesperados
Para que possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou na minha carne como um nódoa do passado.
Eu deixarei tu irás e encostarão a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão em outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu foi eu
Porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei a minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E toda as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas,
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz eternizada.
Se as coisas são inatingíveis…ora! Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos se não fora a mágica presença das estrelas
O que interessa mesmo não são as noites em sim; são os sonhos!
Sonhos que o homem sonha sempre.
Em todos os lugares, em todas as épocas do ano dormindo ou acordado.
(VINÍCIUS DE MORAES – AUSÊNCIA)